Blog · Estatísticas

A emigração portuguesa
em números

Quantos saem, que idade têm, que qualificações levam, para onde vão — e o que isso significa. O dossiê estatístico, com todas as fontes no fim.

Portugal discute a emigração por episódios — uma reportagem aqui, um número solto ali. Esta página junta os dados num só sítio. São as estimativas do Observatório da Emigração (Iscte), do INE e da investigação académica, e desenham um retrato que nenhum episódio isolado mostra: um dos países que mais expulsa gente em toda a Europa, sobretudo gente jovem — e cada vez mais qualificada.

Quantos são

1,8 M

de pessoas nascidas em Portugal vivem no estrangeiro — 17 % da população residente. Contando lusodescendentes, a diáspora ultrapassa largamente os 2 milhões.

4.º da UE

em incidência de emigração, atrás apenas da Roménia, Croácia e Bulgária — e a taxa de emigração mais alta da Europa Ocidental.

1,29 M

de saídas desde 2011 — uma média de 92 mil por ano durante catorze anos consecutivos. O equivalente a esvaziar o concelho de Cascais… seis vezes.

Quantos saem por ano

A série anual mostra o ponto de viragem: no início do século saíam 20 a 27 mil pessoas por ano. Com a crise e a troika, a emigração quintuplicou — pico de 134.624 saídas em 2014 — e nunca mais voltou ao nível anterior: mesmo nos anos «bons», Portugal continua a perder 70 a 80 mil pessoas por ano. Em 2024 foram 80.101.

Estimativas das saídas totais (permanentes + temporárias). Fonte: Observatório da Emigração, quadro E.2 (sem estimativas para 2004–2010).

Que idade têm

É aqui que a estatística dói. 70 % de quem sai tem entre 15 e 39 anos. O resultado acumulado: 30 % de todos os nascidos em Portugal nessa faixa etária — mais de 850 mil pessoas — já vivem fora do país. Quase um em cada três. Não é uma fuga de reformados nem um êxodo de desespero à moda antiga: é a exportação sistemática da geração em idade de trabalhar, constituir família e pagar impostos.

70 %

dos que emigram têm 15–39 anos — a emigração portuguesa é estruturalmente jovem.

1 em 3

dos nascidos em Portugal com 15–39 anos vive fora de Portugal (30 %, mais de 850 mil pessoas).

Que qualificações levam

A emigração «de enxada» é história. A proporção de licenciados entre os que saem subiu de 6 % no início do século para cerca de 10 % em 2011 — e a investigação mais recente (Cerdeira et al.) estima que, nos fluxos de saída, a fatia com ensino superior passou de 29 % em 2014 para 42 % em 2019. Cada um desses diplomas custou ao Estado dezenas de milhares de euros em educação — investimento cujo retorno fica em Zurique, Amesterdão ou Dublin. E metade dos emigrantes qualificados diz que não tenciona regressar.

Para onde vão

O stock acumulado ainda reflete a emigração histórica — França com quase 600 mil portugueses à cabeça. Mas os fluxos recentes contam outra história: em 2024 os principais destinos foram a Suíça (12.388), Espanha (11.332), França (8.088), Alemanha (7.410) e Bélgica (5.471). O Reino Unido, que em 2015 recebia 32 mil portugueses por ano, caiu para menos de 3 mil com o Brexit — a procura não desapareceu, mudou de morada.

Pessoas nascidas em Portugal residentes no estrangeiro, principais países. Fonte: Observatório da Emigração, Factbook 2025. 72 % da diáspora vive na Europa.

O que mandam de volta — e o que levam

As remessas dos emigrantes somaram 4.295 milhões de euros em 2024 — 1,5 % do PIB. É dinheiro real e bem-vindo. Mas convém fazer a conta inteira: as remessas são o juro que Portugal recebe por ter exportado o capital. Quem envia 200 euros por mês para os pais teria pago cá, em IRS, IVA e contribuições, um múltiplo disso — para não falar do que produziria, criaria e ensinaria. Um país não enriquece a arrendar os filhos.

O que os números dizem

Lidos em conjunto, os dados desenham três conclusões. Primeira: a emigração deixou de ser conjuntural — a troika passou, a economia «recuperou», e as saídas estabilizaram em 70–80 mil por ano, o triplo do nível pré-crise. É estrutural. Segunda: o perfil mudou — jovem e cada vez mais qualificado. Quem sai hoje é precisamente quem estaria a construir carreira, empresa e família cá. Terceira: e é aqui que este dossiê encontra o anterior — num país onde 16 % dos agregados pagam 77 % do IRS, os jovens qualificados que embarcam são, exatamente, os 16 % de amanhã. Cada avião que parte estreita a base da pirâmide que sustenta a escola, o hospital e as pensões de quem fica. E com 73 % dos jovens a ponderar sair, a série de 2030 já está, em grande parte, escrita.

A não ser que se lhes dê uma razão para ficar. Há uma petição em curso que propõe uma — concreta, orçamentada e pronta a votar.

Fontes