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O país que fala mal
de quem faz

A inveja tornou-se política económica. A fatura chega todos os anos — em salários, em rankings, em bilhetes de avião só de ida.

Faça-se a experiência. Num jantar de família, anuncie-se: «vou despedir-me para criar uma empresa». Conte-se as reações. «Estás maluco?» «E se corre mal?» «E a segurança?» «Quem te julgas tu?» Agora anuncie-se o contrário: «consegui entrar para o Estado». Ouça-se o suspiro de alívio coletivo, o «ainda bem, filho», o copo erguido. Num país normal, a primeira frase é uma ambição e a segunda é uma escolha. Em Portugal, a primeira é uma imprudência que envergonha a família — e a segunda é a definição de vitória.

Não é folclore. É o mecanismo central da economia portuguesa, e ninguém o mede porque não aparece em nenhuma estatística: o preço social de tentar. Antes de pagar o primeiro imposto, o empreendedor português já pagou o imposto da vizinhança — a suspeita, o desdém, a profecia do fracasso dita com um prazer mal disfarçado. Se falha, confirma-se: «eu bem dizia». Se acerta, pior ainda: «deve ter roubado», «teve sorte», «conhecia alguém». O sucesso precisa de ser explicado por qualquer coisa que não o mérito, porque admitir o mérito obrigaria a fazer uma pergunta insuportável: e eu, porque não tentei?

Antes do primeiro imposto, já se pagou o imposto da vizinhança.

De onde vem o veneno

Isto não nasceu connosco; foi construído, camada a camada. Meio século de um regime que desconfiava do lucro e adorava a licença — onde abrir, expandir ou concorrer pedia autorização, e a virtude era «orgulhosamente sós» e viver com pouco. Seguiu-se um pós-revolução onde «patrão» passou de profissão a insulto, e a palavra ficou assim até hoje — repare-se: dizemos «os patrões» com o mesmo tom com que se nomeia uma classe suspeita. As novelas fizeram o resto: décadas de vilão empresário, gabinete escuro, riqueza sempre com origem duvidosa. A escola completou a obra: treze anos de ensino onde o erro é humilhação pública, o risco não tem cadeira, e o topo da ambição sugerida é «um emprego seguro». E a imprensa fecha o ciclo todos os dias: o lucro é manchete de escândalo; o subsídio é manchete de direito.

O resultado é uma cultura onde a autopiedade é identidade — o «coitadinho» como personagem nacional — e onde a inveja não é um pecado privado mas um regulador social ativo, encarregado de puxar para baixo qualquer cabeça que se levante. Os australianos chamam-lhe tall poppy syndrome e tratam-no como doença. Nós chamamos-lhe humildade e ensinamo-lo aos filhos.

A fatura, em números

Culturas têm consequências, e as consequências têm contabilidade. Portugal está pendurado há um quarto de século nos ~80 % da riqueza média europeia por habitante, sem convergir. A Chéquia e a Eslovénia — que em 1995 olhávamos com condescendência — já nos ultrapassaram; a Polónia, que tinha metade da nossa riqueza por habitante, emparelhou connosco e vai passar-nos na década. A produtividade portuguesa está presa a dois terços da média europeia. Mais de um em cada cinco trabalhadores recebe o salário mínimo. A cunha fiscal sobre um bom salário ronda os 42–50 %. Perdemos cerca de 2 mil milhões de euros por ano em talento jovem que emigra, 73 % dos jovens ponderam sair, e mais de dois milhões de portugueses vivem lá fora — uma das maiores diásporas per capita da Europa. E os «unicórnios portugueses» de que os discursos oficiais tanto gostam? Fundados por portugueses, sim — sediados em Londres, Amesterdão, São Francisco. Até o nosso sucesso é emigrante.

Repare-se no padrão: não há um único destes números que se explique por falta de talento. O mesmo povo, do outro lado de qualquer fronteira, prospera de forma quase insolente. O que muda não são os genes — é o sistema de recompensas. Lá fora, tentar é respeitável, falhar é experiência e acertar é celebrado. Cá, tentar é suspeito, falhar é definitivo e acertar é ofensa.

Não perdemos talento. Perdemos as condições em que o talento se atreve.

Quem faz é a margem que decide tudo

Uma economia não é movida pela média; é movida pela margem — pelo pequeno número de pessoas que decide criar, arriscar, contratar, exportar. São estatisticamente poucos e economicamente quase tudo: cada empresa que nasce é um salário que não depende do Estado, um produto que não existia, um imposto novo, uma razão para alguém não emigrar. Quando uma cultura tributa socialmente essa margem — e o fisco a tributa financeiramente, com carga marginal acima dos 50 % e uma burocracia que premeia o chico esperto — o resultado não é dramático nem visível. É pior: é silencioso. As empresas que não nascem não fazem barulho. Os que desistem antes de começar não aparecem no desemprego. O país não colapsa; definha educadamente, ano após ano, sempre com uma explicação pronta: a Europa, a geografia, a dimensão, o azar. Nunca o espelho.

Como se muda uma cultura

Outros já fizeram este caminho, e nenhum o fez com campanhas de autoestima. A Irlanda construiu durante décadas um consenso nacional à volta de uma ideia simples — quem investe e cria é bem-vindo e paga pouco e parelho — e defendeu-a contra todas as pressões; passou de exportadora de gente a importadora de sedes. A Estónia pôs o empreendedorismo no ensino, o Estado num portal e a empresa a abrir-se em minutos; hoje uma criança estónia diz «quero criar uma startup» com a mesma naturalidade com que uma portuguesa diz «quero um lugar seguro». Israel transformou o fracasso em cicatriz de guerra — quem já falhou tem mais crédito, não menos, porque aprendeu à própria custa. Em todos os casos a receita é a mesma: mudar o que se celebra e mudar o que compensa. As histórias puxam; os incentivos empurram. Nenhum funciona sozinho.

Para Portugal, o teste é concreto e cabe numa pergunta: o que acontece, à mesa do jantar, quando alguém de vinte anos diz «vou criar uma empresa»? No dia em que a resposta instintiva for orgulho — não medo, não ironia, não «quem te julgas» — o resto segue-se: o capital, as empresas, os salários, os regressos. Até lá, cada génio que produzimos continuará a provar que é génio em Dublin, Zurique ou Amesterdão, e nós continuaremos a explicar, com dados e fado, porque é que não vale a pena.

Valorizar quem faz não é ideologia — é aritmética. Um país pequeno, periférico e endividado não tem margem para desperdiçar precisamente as pessoas que multiplicam. Celebrá-las custa zero. Deixar de as castigar, fiscal e socialmente, é o investimento com o melhor retorno que Portugal tem disponível.

Há um primeiro passo concreto em curso — uma petição para um IRS simples de 12,5 % para o trabalho independente. Mas a petição é o menos. O mais é decidirmos, de uma vez, de que lado estamos: do lado de quem faz, ou do lado de quem explica porque é que não vale a pena.