Blog · a aritmética que ninguém faz
Os 16 % que pagam
(quase) tudo
Quase metade dos agregados não paga IRS — e não é culpa deles. A pergunta é outra: quanto tempo aguenta um país que expulsa os poucos que o carregam?
Comecemos pelo número que costuma ser dito com desprezo, para o dizer sem desprezo nenhum: em 2024, 44,7 % dos agregados familiares que entregaram declaração não pagaram um cêntimo de IRS (Estatísticas da AT). E antes que alguém transforme isto num sermão contra «os que não pagam», deixemos uma coisa clara: essas famílias não são o problema. São o sintoma. Não pagam IRS porque os salários portugueses são demasiado baixos para atingirem o mínimo de existência — porque a economia que os devia puxar para cima está há vinte e cinco anos a marcar passo. Numa economia saudável, a percentagem de quem não paga encolheria todos os anos, não por se apertar os pobres, mas porque deixariam de o ser. Este artigo não é sobre eles. É sobre os outros — os que pagam. E sobre o que estamos a fazer-lhes.
A pirâmide invertida
Se quase metade não paga nada, quem paga? Os dados da AT respondem com uma precisão desconfortável. Os agregados com rendimentos acima de 100 mil euros — 3,7 % do total — suportam sozinhos 35,1 % de toda a receita. Somando a faixa dos 40 aos 100 mil, chega-se a isto: cerca de 16 % dos agregados pagam à volta de 77 % de todo o IRS. E no vértice extremo, a «taxa de solidariedade» é paga por 0,63 % dos agregados — 39 mil famílias num país de dez milhões de pessoas.
Fonte: Estatísticas do IRS, Autoridade Tributária (dados de 2024, via ECO). Quotas intermédias derivadas dos dados publicados; valores arredondados.
De cada 100 agregados: 45 não pagam nada, 39 pagam pouco, e 16 carregam três quartos do imposto que financia a escola, o hospital e a pensão de todos. Não são «os ricos» das novelas: são engenheiros, médicos, programadores, gestores, independentes qualificados — precisamente o perfil que enche os aviões para Dublin, Zurique e Amesterdão.
Porque é que toda a gente os trai
A traição não é conspiração; é aritmética. Primeiro, a aritmética do eleitor mediano: se a maioria dos eleitores paga pouco ou nenhum IRS, nenhum partido ganha uma única eleição a aliviar quem paga muito. Os 16 % são poucos votos e muita receita — o alvo perfeito de qualquer orçamento: tributá-los mais nunca custa eleições, aliviá-los nunca as ganha. Segundo, a saída silenciosa: quem carrega o sistema não faz greves, não corta estradas, não incendeia contentores — compra um bilhete de avião. A traição não tem custo político visível porque os traídos desaparecem sem barulho; o protesto deles é uma morada fiscal na Irlanda. Terceiro, a cultura: num país onde o sucesso é suspeito (já escrevemos sobre isso), defender publicamente quem paga taxas marginais de 53 % é suicídio retórico — «então estás do lado dos ricos?» — mesmo quando «os ricos» em causa são um casal de engenheiros a recibos verdes. E quarto, o ciclo que tudo isto alimenta: menos pagadores → mais carga sobre quem fica → mais partidas → ainda menos pagadores. Cada orçamento aposta que os melhores aguentam mais um ano. Um ano, hão de perder a aposta.
O protesto de quem carrega o sistema não é uma greve. É uma morada fiscal na Irlanda.
A matemática do desastre
É aqui que a sustentabilidade deixa de ser palavra de relatório e passa a ser uma conta de dividir. Um agregado do grupo dos 100 mil+ paga, em média, cerca de 28 mil euros de IRS por ano; um agregado pagador mediano, cerca de 1.700. Ou seja: cada família do topo que emigra leva consigo o IRS de dezasseis famílias medianas — e nenhum mínimo de existência fica a pagar a diferença. Façamos a conta do desastre em ponto pequeno: bastaria que um em cada dez agregados do topo saísse — 22 mil famílias, uma pequena cidade — para o Estado perder mais receita de IRS do que se toda a metade de baixo desaparecesse do mapa, porque a metade de baixo, por definição, já contribui com zero.
Cálculos próprios sobre as Estatísticas do IRS da AT (2024): quotas de receita por escalão de rendimento e número de agregados. Ilustrativo; valores arredondados.
E agora cruze-se esta pirâmide com o que já sabemos: 73 % dos jovens ponderam emigrar, o país perde ~2 mil milhões de euros por ano em talento qualificado, e a taxa marginal sobre quem produz acima de 80 mil euros está nos 53 % há mais de uma década, intocada por todos os governos. Os jovens qualificados que hoje partem são, exatamente, os 16 % de amanhã — a base futura da pirâmide invertida está a embarcar. Portugal está a fazer ao IRS o que fez às pensões: assentar um edifício cada vez mais pesado sobre uma base cada vez mais estreita, e chamar «solidariedade» à viga que estala.
A pergunta que fica
Não fechamos este artigo com uma solução gritada — fechamo-lo com a pergunta que nenhum debate orçamental faz. Um sistema em que metade não pode pagar, em que dezasseis em cada cem pagam três quartos de tudo, e em que esses dezasseis são precisamente os mais móveis, os mais pedidos lá fora e os mais castigados cá dentro — quanto tempo aguenta? Mais uma década? Duas? E quem fica a segurar a escola, o hospital e as pensões quando a pequena cidade que paga tudo acabar de se mudar?
Quem quiser começar por algum lado: existe uma petição em curso cujo único objetivo é dar a esses 16 % — e aos que podiam vir a sê-lo — uma razão para ficar.