Blog · Análise · resposta a Nuno Palma
O vício não é dos fundos —
é de quem os distribui
Nuno Palma diz que os fundos europeus são a nossa maldição dos recursos. A Polónia e a Irlanda receberam-nos e dispararam. A variável não é o dinheiro — é um país que escolhe as suas elites pela família e pela lealdade, e não pelo mérito.
Comecemos por dar a Nuno Palma o que é de Nuno Palma. O economista da Universidade de Manchester é dos poucos que obriga este país a discutir o essencial, e o seu novo livro, «O Vício dos Fundos Europeus», tem o mérito raro de atacar um dogma nacional. A tese é séria: tal como o ouro do Brasil no século XVIII, os fundos «distorcem a economia e o processo político» — uma maldição dos recursos com bandeira azul. E o diagnóstico intermédio está certo: os fundos alimentaram clientelismo, consultoras-sanguessuga e uma classe política viciada em fita de inaugurar. Mas a conclusão está errada. O ouro não é a maldição. A maldição é a corte que o distribui. E há dois países europeus que o provam com números.
A experiência natural que a tese não sobrevive
Se o dinheiro de Bruxelas fosse a doença, o país mais doente da Europa seria a Polónia — o maior beneficiário absoluto da política de coesão da história da UE. Aconteceu o contrário. Entre 2004 e 2023, o PIB per capita polaco (em poder de compra) cresceu cerca de 135 %; o português, 47 % — 3,6 % ao ano contra 1,2 %. Em 2023 a Polónia ultrapassou-nos, e Portugal é hoje 22.º entre 27 no PIB per capita, ultrapassado também pela Estónia, pela Croácia e pela Roménia. A Irlanda, que nos anos 80 e 90 recebeu os mesmos fundos de coesão que nós, é hoje tão rica que já nem se qualifica para eles — e mesmo usando a métrica honesta que expurga a contabilidade das multinacionais (RNB* per capita), está 22 % acima da média europeia, enquanto nós estamos 19 % abaixo. Mesmos fundos, três destinos. A variável independente não é o dinheiro.
Crescimento do PIB per capita (PPC), 2004–2023. Fonte: Eurostat, via ECO. A Polónia é o maior beneficiário absoluto de fundos de coesão da história da UE — se os fundos fossem a maldição, seria o país mais doente da Europa.
O que eles fizeram com o dinheiro — e com os impostos
A diferença não está em receber; está no que se faz ao talento enquanto se recebe. A Irlanda decidiu nos anos 90 que a sua vantagem seria gente qualificada e impostos baixos: fixou o imposto sobre empresas em 12,5 % — sim, o número desta petição — e manteve-o até hoje para 99 % das empresas, enquanto investia em educação até chegar a 62 % de diplomados entre os 25–34 anos e ao maior número de licenciados STEM per capita da UE. Resultado: as startups e as multinacionais foram para lá, e os engenheiros portugueses também. A Polónia atacou precisamente na frente desta petição: o trabalho independente. Um programador freelancer em Varsóvia paga uma taxa fixa de 12 % sobre o rendimento; um médico, arquiteto ou engenheiro por conta própria, 14 % — o regime simplificado ryczałt, sem escalões progressivos, sem contabilidade de despesas, declarável num formulário. (O sistema polaco tem até uma taxa de exatamente 12,5 % — para rendas acima de 100 mil zlótis. O número desta petição não é radical; está em vigor a 2.500 km daqui.) E a carga fiscal geral sobre o trabalho ficou nos 34,8 %, contra os nossos 41,2 %. Portugal, no mesmo período, manteve uma taxa marginal de 53 % sobre quem produz acima de 80 mil euros — intocada por todos os governos desde 2013. Uns usaram os fundos como trampolim para o talento; nós usámo-los como anestesia para não ter de o reter.
Carga fiscal total sobre o trabalho (empregado + empregador) e política-bandeira de cada país para atrair ou reter talento. Fontes: ECO/Eurostat; BPG (Polónia); Wikipedia/OCDE (Irlanda).
Em que investimos nós
Aqui chegamos à verdadeira doença — a que a metáfora da maldição deixa por tratar. Portugal não investe no talento porque, culturalmente, ainda não acredita nele. O World Management Survey de Bloom e Van Reenen, o maior estudo mundial sobre qualidade de gestão, coloca Portugal no fundo da Europa — ao lado da Grécia e atrás do Brasil em várias dimensões. E identifica o preditor mais forte de má gestão: empresas familiares que entregam o comando ao filho mais velho, independentemente do mérito. A primogenitura como política de recursos humanos — a nossa maneira provinciana de avaliar pessoas pela família e não pelo que valem, transformada em ciência revista por pares. O retrato completa-se com o maior défice de qualificações da UE (Fundação José Neves) e com o Estado a gastar 0,66 % do PIB em I&D (total: 1,75 % contra 2,2 % da média europeia) — enquanto o orçamento da FCT para 2026 (647 milhões) fica abaixo do de 2024 (675 milhões) e os investigadores saltam de bolsa precária em bolsa precária até ao aeroporto. O resultado está no nosso dossiê da emigração: 1 em cada 3 jovens nascidos em Portugal já vive fora, e 42 % dos que saem levam um diploma. Nós pagámos a formação; Zurique cobra o retorno.
O ouro não corrompeu a corte. A corte é que decidiu gastar o ouro em si própria.
Onde Palma acerta — e onde a metáfora falha
Palma tem razão no mecanismo: dinheiro fácil sem escrutínio degrada incentivos, e quatro décadas de fundos criaram uma indústria nacional de intermediação — 197 mil milhões de euros desde 1986, 10 milhões por dia, geridos por avaliadores que avaliam avaliadores. Mas repare-se no que a comparação internacional faz à metáfora: se o mesmo «ouro» produz convergência em Varsóvia e Dublin e estagnação em Lisboa, o problema não pode estar no ouro. Ele próprio o diz, sem tirar a conclusão: «os fundos funcionam como uma aspirina: aliviam os sintomas, mas não tratam a doença». Exatamente — e ninguém culpa a aspirina pela doença. A doença é anterior aos fundos e sobreviver-lhes-ia: é um sistema que seleciona quem decide — na política, na empresa familiar, na nomeação pública — pelo apelido, pela cunha e pela lealdade partidária, e que trata quem sabe como ameaça. Cortar os fundos a uma elite escolhida assim não nos daria uma Suíça; dava-nos o mesmo país, mais pobre, gerido pelas mesmas pessoas. A Polónia e a Irlanda não tiveram melhor sorte — tiveram melhores critérios.
A conclusão que os números impõem
O debate certo não é «fundos sim ou fundos não» — é quem decide e com que critério. Enquanto o dinheiro público financiar a consultora certa e o primo errado, nem mais 200 mil milhões nos salvam; no dia em que financiar quem faz — investigadores com carreira, empresas geridas por competência, jovens qualificados com razões fiscais para ficar — os fundos deixam de ser aspirina e passam a ser músculo, como foram no Báltico e no Vístula. A Irlanda escolheu 12,5 % para as empresas. A Polónia escolheu 12 % para os freelancers. Portugal ainda vai a tempo de escolher alguma coisa — e há uma proposta concreta em cima da mesa que custa menos do que um ano de intermediários.
Fontes
- Nuno Palma, «O Vício dos Fundos Europeus» (2026): Jornal Económico; entrevistas ao DN e ao Jornal Nordeste; índice do debate no blog do autor.
- Fundos recebidos: Polígrafo; ECO, 40 anos de fundos.
- Portugal vs Polónia: ECO, análise comparativa; ranking 2025: ECO. Regime ryczałt (12 % TI, 14 % profissões técnicas, 12,5 % rendas): PwC Tax Summaries, Polónia.
- Irlanda: CSO, RNB* per capita; imposto de 12,5 %; qualificações e STEM.
- Gestão e qualificações: Bloom & Van Reenen, QJE; Fundação José Neves.
- I&D e ciência: Comissão Europeia, ERA Country Report; orçamento FCT.